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Em mãos incompetentes (sobre a fusão Cerdedo-Cotobade)

11/04/2016

[Este artigo de opinião foi publicado por primeira vez em versão reduzida e com grafia ILG-RAG no jornal diário Faro de Vigo (09/04/16). Foi republicado na versão aqui exibida no Diário Liberdade (11/04/16) e a partir daí noutros meios. Mais textos e trabalhos disponíveis >aqui<]cerdedo-cotobade

Há um refrão em inglês que diz algo assim como “não atribuas à malícia o que pode explicar a ignorância”. É o que começo a crer que acontece neste País nosso.

Quadrou que levava uns tempos falando sobre o ordenamento e planeamento territorial galego quando apareceu a notícia da fusão dos concelhos de Cerdedo e Cotobade. Quadrou também que chegou até mim uma cópia do “Informe Xustificativo” cerdedense, e da incredulidade passei a lembrar o dito acima: quem escreveu tal cousa seguramente nunca viu diante uma memória geográfica, um informe territorial, um estudo de campo profissional, nem nada parecido.

O texto autocomplacente mistura uma mera enumeração de elementos com conclusões sem fundamento, como o mago que fai um truque sem sabermos como.

Esqueçamos por um instante que algo tão sério como uma fusão municipal deveria ir acompanhada como mínimo por um plano municipal completo, para que o novo concelho tivera alguma esperança de vida no momento da sua gestação. Esqueçamos que tal plano deveria responder à chamada ‘planificação territorial estratégica’, que é como se fazem estas cousas pelo mundo (não há que inventar nada) e que na nossa Terra é, por desgraça, ficção científica. O facto é que o nomeado informe não tem valor técnico e chega a afirmações erradas baseadas em dados parciais e sem contraste.

Começa bem, curiosamente, quando no primeiro parágrafo afirma-se que “o marco territorial está obsoleto e non responde [ás] características actuais da sociedade galega”. Efectivamente, é uma desfeita, e as províncias/deputações e municípios são parte intrínseca desse problema, mas não pelo que o concelho de Cerdedo suspeita. Este é um debate tão velho e documentado como a mesma aparição dessas províncias e municípios a partires de 1833, que vieram a rachar coa estrutura espacial galega tradicional, criando toda uma série de desajustes que sofremos desde então.

Seguem-se depois obviedades (“as previsións demográficas de ambos concellos empezan a ser preocupantes” – começam?), momentos de vergonha alheia (“o proceso de fusión implica o incremento de poboación nunha magnitude que ningún dos preexistentes podería conseguir en décadas” – e se juntáramos cinco melhor), que derivam em especulações (“é lóxico supoñer que a xestión conxunta de servizos suporá un aforro considerable” –  supor algo tão delicado sem contraste de dados é muito arriscado), e falsidades (“importante semellanza territorial entre os concellos”).

Uma olhada rápida ao mapa do novo concelho (embaixo) dá para ver como há duas unidades morfo-geográficas claras, com uma possível terceira no norte-noroeste sem continuidade territorial e que reflexa, aliás, como os concelhos actuais foram mal delimitados já no seu momento. As divisões administrativas bem poderiam ter sido feitas ou refeitas de várias formas diferentes tendo em conta os outros concelhos da contorna. Em todo caso, o novo concelho Cerdedo-Cotobade seria uma estrutura ainda mais deslabaçada, que continuaria a actuar como dous, ou mais, blocos independentes. Além disso, as fotocopias com estatísticas e gráficas diversas – anexas como ‘prova definitiva’ e onde devemos jogar à dedução e ao ‘encontra as semelhanças’ pela nossa conta – não são analisadas em paralelo, seguramente porque ao extrapolarmos dados e percentagens vemos que as dinâmicas sócio-económicas de ambos concelhos sim apresentam diferenças, diferenças que terão que ser harmonizadas seguindo um detalhado plano de… ah, que não havia plano.

Contudo, o mais rechamante deste caso centra-se na questão demográfica como principal escusa do casamento municipal. O cálculo oficialista vira arredor do axioma ‘a mais população mais ajudas, a mais ajudas menor perda populacional’ (“[a] fusión é un instrumento estratéxico de primeira magnitude para asegurar a supervivencia e sustentabilidade a medio e longo prazo”). Lamentavelmente, não se explica qual é a correlação entre dinheiro e correcção do saldo vegetativo negativo, basicamente porque não é automática. Também não se explica se houve medidas de correcção no passado, quais foram, se falharam e porque falharam, que garante que vaiam funcionar no novo concelho, etc. Há novas projecções e estudos? Dependerá o porvir deste novo super-concelho das esmolas da Xunta para sempre? Em que se vão gastar? Exactamente como se vai garantir o fornecimento de serviços? Porque não se pulou pelo plano comarcal e a colaboração regular dentro desse quadro, fazendo fronte comum entre varios concelhos? São alguns dos aspectos que deveriam estar explicados pelo miúdo. O documento chega até o absurdo de indicar que de não cumprir-se esta união cairia-se na “inacción administrativa”… é assim como vêem a sua própria gestão?

Fala-se de “implantación de actividades económicas e industriais” pois o “novo concello goza dun posicionamento estratéxico derivado da súa boa comunicación”. Agromam mais perguntas cujas respostas também tinham que estar já no papel: São actividades desenvolvimentistas clássicas? A fracassada estratégia de parques industriais? Algo novo? O que? Como? Actividades económicas de que tipo? Vencelhadas ao turismo e património natural e cultural que leva anos sendo ignorado e sepultado por silveiras e parques eólicos? Vai parar o AVE em Cerdedo ou Cotobade depois de fracturar ainda mais o território? Serviria realmente para algo? Vão-se elaborar memórias económicas e sectoriais pormenorizadas com projecções de futuro como parte dum plano final? E seica o novo concelho vai mudar de localização, que agora não está bem posicionado… isso sim é novidade!

Poderíamos comentar os motivos da generalizada perda de população do rural galego, que é outro longo debate e que nos traria de volta ao caos territorial. Como resumo, pode-se dizer que não há um modelo territorial claro para Galiza, uma ideia do que somos e aonde queremos ir. Não há uma referência nem um guia para o planeamento espacial que poida ser utilizada por planos municipais coordenados, entre eles e com outros planos. Cita-se “A Xunta de Galicia tamén realiza un considerable esforzo de apoio aos procesos de fusión”, mas não se repara em que a própria Xunta é a grande responsável dessa falta de modelo. Para rematar, com esta fusão destrói-se alegremente o mapa comarcal (da Xunta) de 1997, isto é, o pouco que talvez algum dia poderia chegar a servir como alternativa vertebradora dos distintos níveis territoriais. A desacertada frase “Os concellos … aínda que pertencentes a distintas comarcas … presentan unha indudable [sic] similitude e continuidade” provoca o desacougo de saber que estamos em mãos desinformadas e portanto, dada a sua responsabilidade pública, incompetentes.

É uma necessidade urgente podermos estabelecer esse modelo territorial consensuado no que implementarmos actuações lógicas e razoadas, sabendo que podemos errar, o cal é humano, mas nunca por causa do desespero, improvisação ou ignorância. As fusões municipais por elas mesmas não resolverão grande cousa, criando-se com elas novas jurisdições artificiais num marco geral eivado, novos pólos e novos fluxos dos que não sabemos nada. No melhor dos casos, será uma dessas situações de ‘pão para hoje’ quando a Galiza precisa primeiro duma reformulação espacial total.

E a democracia, é verdade, a democracia. Que importante é. Porém, há que lembrar que a democracia alicerça-se na informação. Dispormos de todos os dados é o requisito inicial para começar a te-la, e isso não se resolve com algumas palestrinhas informativas a posteriori e anúncios populistas de ‘referendos’ uma vez feita a foto com o Presidente dando-o tudo por fechado. Tampouco limitando o aceso a este ‘Informe’ em sede municipal durante umas horas e uns dias determinados, havendo internet.

É certo que existe um subtil equilíbrio entre atingir o ‘bem da maioria’, as iniciativas administrativas, a vontade popular e os critérios técnicos, mas isso precisamente implica governar. Por esta razão falava no começo do planeamento estratégico, que numa situação como esta determina os passos a seguir desde um ponto de vista técnico mas, igualmente, detalha como a cidadania deve estar totalmente informada e formar parte do processo antes, durante e depois do seu desenvolvimento, execução e seguimento. Noutras palavras, a proposta de fusão Cerdedo-Cotobade deveria ter seguido umas etapas bem definidas sob constante escrutínio público. No fim, este é um tema crítico que afecta o futuro dos vizinhos e vizinhas e que precisa de todas as garantias possíveis.

A propósito, democracia também teria sido incluir algo tão sensível nos programas das eleições locais do ano passado, e não vir agora com umas presas incompreensíveis quando se requer um processo lento e pausado, mas temo que isso dá para outro escrito.

Topográfico fornecido pelas autoridades. Clicar para ampliar.

Topográfico fornecido pelas autoridades. Clicar para ampliar.

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“A Galiza e o Norte de Portugal são a origem da celticidade europeia” (F. Benozzo) – “Galicia and North Portugal are the origin of European Celticity”

23/03/2016
Foto de Aldo Missiroli (CC by-sa/4.0) - O Professor Francesco Benozzo

O Prof. Benozzo. Foto de Aldo Missiroli (CC 4.0)

[scroll down for English version] Ré-reproduzo a (pequena) entrevista que tive a honra de lhe realizar ao Prof. Francesco Benozzo, perante a sua iminente visita. Foi publicada por primeira vez no blogue amigo do DTS (13/03/16), e desde aquela re-publicada também noutros muitos lugares.

 

O Professor Francesco Benozzo (Módena, Itália, 1969) é um dos grandes nomes por trás do Paradigma de Continuidade Paleolítica, afirmando que existe uma continuidade clara nas origens e desenvolvimento dos povos europeus, origens que podem ser colocadas ainda mais atrás no tempo do que normalmente é considerado. Esta mudança na compreensão da arqueologia, pré-história e linguística europeia é de enorme relevância para a Galiza e (Norte de) Portugal, pois situa este território no centro da génese da chamada Cultura Celta, entre outros aspectos.

Com dois doutoramentos em linguística e filologia pelas universidades da Bolonha (Itália) e Aberystwyth (País de Gales), na actualidade lecciona na nomeada universidade italiana. Contudo, Francesco Benozzo não está limitado pelo formalismo que normalmente acompanha a vida académica. Ele também é um reconhecido poeta e harpista, com um grande número de obra e música editada, o que fez com que o seu nome fora proposto como Prémio Nobel de Literatura.

Teremos a fortuna de recebê-lo este próximo Abril (dias 2 e 3) na quinta edição das Jornadas das Letras Galego-Portuguesas (Pitões das Júnias, Montalegre, na “raia” galego-portuguesa), onde debaterá sobre estes e outros temas, como vai indicado na entrevista a seguir.

 

– Qual foi a primeira coisa que chamou a sua atenção sobre a Galiza e Norte de Portugal? Foi algo puramente académico ou houve algum outro factor motivando que se centrara em nós?

Desde que era criança o meu instinto sugeria que o significado original das coisas reside nas áreas e localizações periféricas. Com isto não quero dizer “periférico” simplesmente num sentido geográfico mas, principalmente, num sentido poético. Esta é uma das razões pelas quais fui viver ao País de Gales (e não Inglaterra) durante uns anos, e também a razão pela qual deixei a minha cidade natal de Módena, no norte da Itália, e decidi viver nas montanhas. Também acredito que, como académicos, devemos estudar e concentrarmos-nos em tradições “periféricas”: tradições populares, dialectos, textos orais, culturas das pessoas marginais e assim por diante, porque o que agora é percebido como “marginal” e “periférico” foi , em muitos casos, o centro original do que na actualidade percebemos como centro.

A Galiza e o Norte de Portugal sempre foram parte desta minha “topografia poética” e da minha concepção poética, começando pelas suas lendas e tradições e grandes poetas como os trovadores medievais, até mesmo Rosalia de Castro ou Eduardo Pondal.

 

Considera que o noroeste ibérico pode ser considerado a origem da “celticidade” na Península desde um ponto de vista linguístico?

Não só. Penso que pode ser considerado a origem da celticidade em toda a Europa.

 

Qual é a sua opinião sobre a relação entre o mundo céltico e Tartesso, como postula o Prof. Koch?

John [Koch] tem produzido um trabalho extraordinário sobre isso na última década. Não vejo quaisquer razões linguísticas que puderam negar essa conexão postulada. O problema com a teoria de Koch é que auto-limita-se à Idade do Bronze Tardio, o qual contradiz a sua ideia de “Celtas do Oeste”. Em vez disso, se falarmos de etnogénese, devemos ir além das restrições das fontes escritas e termos a habilidade para conectarmos-las com outro tipo de fontes como assim as lendas, tradições, genética, etno-textos ou léxico dialectal. Em consequência, poderemos falar de “Celtas Paleolíticos” nesta área. Dentro deste quadro, Tartesso pode ser visto como uma das muitas relíquias escritas “recentes” de um fenómeno muito mais antigo.

 

– Por que acha que há este esforço renovado em algumas partes da Europa para desacreditar o termo “celta”, ou mesmo até a existência de uma cultura celta?

Por três razões principais. Em primeiro lugar, sendo eu mesmo um anarquista, diria que há uma tendência inata por parte dos que estão no poder de excluírem a diversidade e, acima de tudo, “centralizarem” qualquer tipo de estratégia ligada ao seu poder. Assim, como sabemos, desde a sua proto-história os celtas sempre foram os “perdedores” em termos geopolíticos e foram excluídos logo de qualquer jogo de poder das elites europeias.

Em segundo lugar, podemos encontrar um desconforto geral com a celticidade se a compararmos às culturas oficiais padronizadas que, de certa forma, governam o mundo. Noutras palavras, admitir que a inquietante, multiforme, colorida, rural, estratificada e arcaica cultura celta possa ser parte de nós é, em muitos casos, difícil de aceitar para as pessoas criadas com a certeza e o mito conformista da estabilidade e um conhecimento superficial da história europeia.

Por último, e em relação às razões mencionadas acima, a cultura celta representa, em termos psicanalíticos, o subconsciente da Europa, o que provoca uma contínua tentativa para reprimi-lo e suprimi-lo.

 

– Como reconhecido investigador, mas também como poeta e músico, há algum tipo de conexão entre o seu trabalho académico e o seu trabalho artístico? Ou tenta manter ambos mundos separados?

Espero que estes três aspectos convivam, como acontece com diferentes elementos duma mesma paisagem. A minha expectativa é provavelmente parecer como um músico que estuda filologia, um poeta que toca harpa e um filólogo que compõe poemas.

 

– Depois de todas as suas viagens e investigações, como resumiria o “carácter céltico”? Por exemplo, quando visita a Galiza-Norte de Portugual, que sente em conexão com outros territórios célticos?

Primeiro de tudo, há um sentimento especial com o mar, que é diferente do que tenho observado noutras comunidades, tais como as das Ilhas Féroe ou do Mediterrâneo. Nas terras celtas este sentimento está ligado a uma atitude “lendária” e melancólica na percepção da paisagem marinha, e na capacidade de conectar lugares com histórias.

Há também uma clara, inata, não previsível, percepção musical do mundo. Além disso, existe a consciência do valor arcaico e civilizador de coisas que foram esquecidas noutros lugares, como partilhar umas bebidas, alimentos e histórias.

 

Nas V Jornadas das Letras Galego-Portuguesas, o Prof. Benozzo participará com a palestra intitulada “Uma paisagem atlântica pré-histórica. Etnogénese e etno-filologia paleo-mesolítica das tradições galegas e portuguesas”.

O evento é aberto e de assistência livre e gratuita, e a intervenção do Prof. Benozzo será em inglês com tradução ao português.

 

[English version] This is a re-republication of a (small) interview I had the pleasure to conduct with Prof. Francesco Benozzo, before his impending visit. It first appeared on DTS (13/03/16), and has since then been republished in a number of other places.

 

Interview with Prof. Francesco Benozzo: “Galicia and North Portugal are the origin of European Celticity

Professor Francesco Benozzo (Modena, Italy, 1969) is one of the big names behind the Paleolithic Continuity Paradigm, claiming that there is a clear continuity in the origins and development of European peoples, origins which may also be placed further back in time to what it is commonly considered. This shift in the understanding of European archaeology, prehistory and linguistics is of the utmost relevance for Galicia and (Northern) Portugal, as it sets this territory at the centre of the genesis of the so-called Celtic Culture, among other aspects.

With two PhDs in linguistics and philology by the universities of Bologna (Italy) and Aberystwyth (Wales), he currently lectures at the former Italian university. However, Francesco Benozzo is not limited by the formalism that usually accompanies academic life. He is also an acclaimed poet and harpist, with a large number of published works and music, leading to his name being proposed for a Nobel Prize in Literature.

We will be most fortunate to welcome him this coming April (2-3) in the fifth edition of the Jornadas das Letras Galego-Portuguesas (Pitões das Júnias, Montalegre, right at the Galician-Portuguese border), where he will be discussing these and many other topics, as outlined in the following interview.

 

What was the first thing that got your attention about Galicia and North Portugal? Was it something purely academic or was there any other factor that made you focus on us?

Since I was a child my instinct suggested that the original meaning of things lies in peripheral areas and locations. I don’t just mean “peripheral” in a geographical sense but, mostly, in a poetic one. This is one of the reasons why I went to live to Wales (and not England) for a few years, and it is also the reason why I left my hometown of Modena, in Northern Italy, and decided to live in the mountains. I also believe that, as academics, we must study and concentrate on “peripheral” traditions: folk traditions, dialects, oral texts, cultures of the marginal people and so on, because what is now perceived as “marginal” and “peripheral” was, in many cases, the original centre of what we currently perceive as being at the centre.

Galicia and North Portugal have always been part of this “poetic topography” of mine and of my poetic conception, starting from their legends and traditions, and from great poets such as the medieval troubadours, to even Rosalia de Castro or Eduardo Pondal.

 

– Do you think that the Iberian north-west can be considered the origin of “Celticity” in the Peninsula from a linguistic point of view?

Not only. I think that it can be considered the origin of Celticity in all of Europe.

 

What is your opinion on the relationship between the Celtic world and Tartessos, as Prof. Koch postulates?

John [Koch] has produced an extraordinary work in the last decade about that. I don’t see any linguistic reasons that could deny this postulated connection. The problem with Koch’s theory is that it limits itself to the late Bronze Age, which comes in contradiction with his idea of “Celts from the West”. If we speak of ethnogenesis instead, we must go beyond the restrictions of written sources and have the ability to connect them with other sorts of sources such as legends, traditions, genetics, ethnotexts or dialectal lexicon. Consequently, we’ll be able to speak of “Paleolithic Celts” for this area. Within this framework, Tartessos can be seen as one of the many “recent” written relicts of a much older situation.

 

– Why do you think there is this renewed effort in some parts of Europe to debunk the term “Celtic”, or even the existence of a Celtic culture?

For three main reasons. Firstly, being myself an anarchist, I would say that there is an innate tendency of those in power to exclude diversity and, above all, to “centralise” any kind of strategy connected to their power. Thus, as we know, since their proto-history the Celts have always been the “losers” in geopolitical terms, and have then been excluded from any power play of the European elites.

Secondly, we can find a general discomfort with Celticity if compared to the official and standardised cultures which, in a way, rule the world. In other words, to admit that the many-sided, coloured, rural, disquieting, stratified, archaic Celtic culture can be part of us is, in many cases, difficult to accept for people raised with the certainty and the conformist myth of stability and with a superficial knowledge of European history.

Lastly, and in connection to the above-mentioned reasons, Celtic culture represents, in psychoanalytic terms, the subconscious of Europe, which causes a continuous attempt to repress and suppress it.

 

– As an accomplished researcher, but also poet and musician, is there any connection between your academic work and your artistic work? Or do you keep both worlds separate?

I hope that these three aspects live together, as it happens with different elements of a same landscape. My expectation is probably to look like a musician who studies philology, a poet who plays the harp, and a philologist who composes poems.

 

After all your travels and research, how would you summarise the “Celtic character”? For example, when you come to Galicia-North Portugal, what do you feel in connection to other Celtic territories?

First of all, there is a special feeling with the sea, which is different from the one I have observed in other communities such as the Faroese or Mediterranean ones. In Celtic lands this feeling is linked to a “legendary” and melancholic attitude in perceiving the landscape and seascape, and the capacity to connect places with stories. There is also a clear, innate, not predictable, musical perception of the world. Furthermore, there is the consciousness of the archaic and civilising value of things that have been forgotten elsewhere, such as the sharing of drinks, food and stories.

 

At the V Jornadas das Letras Galego-Portuguesas, Prof. Benozzo will give a presentation entitled “A prehistoric Atlantic landscape. Paleo-mesolithic ethnogenesis and ethnophilology of the Galician and Portuguese traditions”.

The event is free and open to the public. Prof. Benozzo’s talk with be in English with translation into Portuguese.

V JornadasGalegoPortuguesas

Da Irlanda à Irlanda, via Galiza

16/03/2016
Tentamos "irlandesizar" o possível a entrada... acho que funcionou!

Tentamos “irlandesizar” no possível a entrada… acho que funcionou!

A cabeça não para, e ainda bem.

Depois dum evento mais formal sobre a Irlanda, segue-se algo diferente, focado na celebração do Dia Nacional (17) e lembrança da crucial Proclamação da República Irlandesa em 1916, que no ano presente cumpre o seu centenário.

Tenho a sorte de poder organizar os “Dias da Irlanda” no meu centro de trabalho, onde estarei palestrando sobre esta terra irmã na sexta (18) às 20h. Será algo divulgativo e amável com o título “A Irlanda para galeg*s. Uma viagem por um país vizinho“.

Éire não nos é nem extranha nem estrangeira. Sem Ela seríamos menos e sem nós Ela não seria…

Mental days, and that’s grand.

Following a more formal event on Ireland, it’s now time for something a bit different, focused on the celebration of the National Day (17th) and remembrance of the crucial Proclamation of the Irish Republic in 1916, which this year meets its centenary.

I’m fortunate to be able to organise the “Days of Ireland” at my workplace, where I’ll be speaking next Friday (18th) at 20h. It’ll be something accessible and informative, with the title “Ireland for Galicians. A trip to a neighbouring country“.

Éire is neither a stranger nor foreign. Without Her we would be less, and without us She would not be…

Galiza-Éire seminar/seminário

10/03/2016

eireEstaremos na USC (10/03/16, 9h30) falando da comparativa Galiza-Irlanda em chave geográfica contemporânea, por amável convite do Depto. de Geografia e o GIS-T. Grande marco para grande tema, é uma honra!

[Actualização: recorte de imprensa sobre o evento. Ascenderam-me de categoria e traduziram as minhas palavras, mas bom, é um resumo do que aconteceu 😉 ]

We’ll be at USC (10/03/16, 9:30) comparing Galicia and Ireland from a contemporary geographical perspective, by kind invitation of the Dept. of Geography and the GIS-T. Great setting for a great topic, it’s an honour!

[Update: press clip on the event. I was upgraded and my words were translated but, anyway, it’s a summary of what happened 😉 ]

Notícia inicial / Press announcement (GCiencia):

Amosar as posibilidades para o estudo comparado da sociedade e o territorio de Galicia e Irlanda é o obxectivo do seminario que o 10 de marzo terá lugar na Facultade de Filosofía organizado polo Departamento de Xeografía, o Gist (Grupo de Investigación Sociedade, Tecnoloxía e Territorio-Novos Medios da USC) e a Asociación Ibérica de Sistemas e Tecnoloxías da Información AISTI. Trátase de abrir un foro de debate sobre temas centrais de interese estratéxico para Galicia como son o suicidio demográfico, a planificación territorial e o uso das TIC nas universidades.

O seminario vai  dirixido as estudantes, investigadores e docentes da USC ou calquera persoa interesada en Irlanda e na Europa Atlántica, que deberán inscribirse previamente enviando un correo a gist-formacion@usc.es co seu nome completo, enderezo electrónico, estudos e situación profesional.

No encontro, o profesor Patrick O’Flanagan, da University College Cork de Irlanda, responderá á interrogante de por qué Irlanda é o país europeo con maior dinamismo demográfico, mentres que o profesor da mesma universidade Xoán Paredes estabelecerá comparacións entre Galicia e Irlanda no tocante á ordenación territorial. Ademais, o profesor da USC Carlos Ferrás reflexionará sobre o cambio social e económico de Irlanda nos últimos 30 anos a partir de imaxes e cartografía seleccionada e a profesora Mariña Pose comparará o uso das TIC nas universidades de Cork e Santiago. Rematará a sesión cunha mesa de debate na que se analizará a maneira cómo se investiga e estuda en Irlanda.

“Ti vai fazendo”

06/03/2016

Cerde-bade-NOMRe-reproduzo cá um texto recente que aguardo seja dalguma utilidade. Foi publicado em primeiro lugar pelo jornal Praza Pública (29/02/16) e republicado pelo Diário Liberdade (03/03/16). Está baseado num outro artigo publicado anteriormente numa revista académica (falara disso aqui). Toda a informação deriva, à sua vez, duma tese de investigação universitária prévia.

O “ti vai fazendo” é um mantra da contemporaneidade galaica. Tanto vale para uma cousa como para outra, para isto ou para o contrário. É a base filosófica do feísmo estético e funcional da nossa paisagem. Organizar, ordenar, planificar, projectar, isso não presta.

Fundir concelhos – como Cerdedo e Cotobade – e assuntos semelhantes deveria ser tema sério e meditado dentro dum esquema global maduro. Mas não na Galiza, aqui não.

Partimos do facto de que a prática contemporânea de planeamento e ordenamento territorial foi introduzida relativamente tarde e mal na Galiza, em 1956, enquanto o chamado planeamento estratégico não apareceu até 1992. Isto explica em parte que o desenvolvimento e implementação de actuações espaciais raramente tiveram bons resultados. Além disso, a Galiza apresenta um outro problema que é a existência em paralelo duma estrutura tradicional (ainda viva no rural na forma de paróquias e nas zonas urbanas disfarçada como bairrismo) e uma estrangeira pobremente adaptada (concelhos e províncias, de criação muito recente em perspectiva histórica). Assim, os deficientes planos tinham e têm que actuar sobre uma realidade territorial esquizofrénica.

Com estes vímbios é complicado fazermos nada, a não ser reconstruir esse marco territorial e começar a aplicar um planeamento estratégico devidamente adaptado. Difícil, lento, mas absolutamente necessário. Daí as inúmeras chamadas durante décadas à reforma e racionalização do território galego.

As propostas clássicas, desde Castelao e companhia até o dia de hoje, vão às voltas da eliminação de províncias e deputações, e mesmo dos concelhos (ou talvez da sua reorganização radical), primando o papel da paróquia e consolidando as comarcas como entidades regionais intermédias entre essas paróquias e o governo central galego. Mais ou menos. Mesmo temos competências autonómicas e alguma legislação aprovada para tudo excepto para as províncias, que não se tocam até que o diga o Estado ou lisquemos do mesmo, pois para isso são o seu invento.

Contudo, pode-se dizer que o dilema fundamental reside no falhanço de estabelecer um quadro de referência, uma estratégia ou plano nacional capaz de coordenar e integrar todos os diferentes actores sociais, económicos e territoriais. É dizer, um modelo claro para o nosso território baseado num consenso, algo que a administração galega em todas as suas incarnações foi incapaz de providenciar apesar do extenso debate académico e conversas de café sobre o tema.

Como consequência, autoridades provinciais e municipais de toda tendência embarcaram em agendas personalistas, agravando o clientelismo, desequilíbrios territoriais, duplicação e desperdício de recursos, construções incontroladas, especulação, falta de coordenação administrativa, improvisação… Enfim, se vivedes na Galiza e sodes algo observadores, que vós vou contar?

Aliás, a alternativa das tantas vezes publicitada concentração municipal não resolveria grande cousa por ela mesma. Tirando alguns estudos muito parciais, não sabemos nada sobre novos pólos e novos fluxos derivados da criação de novas jurisdições. É algo complexo ainda por analisar e valorar na sua totalidade. Fala-se do tema mas não se sabe aonde é que se quer chegar e como é que se vão encaixar essas novas entidades, entre elas e com outras estruturas espaciais.

Pensemos no recente caso da união dos concelhos de Cerdedo e Cotobade, anunciada por surpresa entre governos locais amigos, com padrinhagem do também governo amigo da Xunta. Que vantagens vai ter de repente um concelho rural de uns 215 km2, com mais de 6000 habitantes e arredor de 180 núcleos de povoamento, fracturado geograficamente? Por exemplo, como vai organizar o fornecimento de serviços, recursos e equipamentos quando, na prática e por algo tão óbvio como a orografia, continuará agindo como dous (ou mais) blocos separados? Pode que receba maior financiamento público por causa do novo tamanho, certo, mas não é isto acaso uma perpetuação do mísero sistema de supervivência a base de subsídios? Cita-se o despovoamento como um dos factores fundamentais que levou a esta situação, mas agora os problemas podem-se agravar e não ao contrário, pois estaremos aplicando medidas já fracassadas a um espaço ainda mais artificial. Intuo que os verdadeiros valores desses concelhos na actualidade, como a sua natureza, património histórico-cultural e imenso potencial turístico, hão continuar a ser ignorados em benefício de demenciais tentativas de atrair o “progresso” e preservar uns votinhos.

Ademais, formalmente esta fusão representa uma derrota absoluta de duas cousas: primeiro, a teoria do planeamento estratégico, que impõe a transparência plena dentro das corporações municipais antes de efectuar o anúncio, acompanhado à sua vez de consultas com a população antes, durante e depois, sem falar de todo o trabalho técnico embutido em casa passo do processo. Por exemplo, o novo concelho deveria ser apresentado já com um plano municipal completo para botar a andar com certas garantias. Em segundo lugar, alá foi o modelo comarcalizador de 1997, fundindo dous concelhos de comarcas bem diferentes e diferenciadas, primando o tramado estatal e outros possíveis interesses que só o futuro irá desvelando sobre o próprio galego. E é que se o modelo comarcal de Fraga e Precedo Ledo apresentava sérias eivas e foi muito – e justamente – criticado, indicava um tímido avanço cara o que deveria ser. Com isto dinamita-se o mapa e de repente Feijoo quase que (permita-se-me o exagero) está fazendo bom ao Fraga nestas cousas, que já é dizer.

Entendamos duma vez a gravidade do assunto, pois lidamos com um dos piares da nossa idiossincrasia como Povo. Um dos nossos grandes patrimónios, como a língua, é o território, pois a paisagem cultural não é só um legado e testemunha duma forma de ser e viver, algo que nos pode definir e resumir numa soa imagem, mas é uma obra de arte milenar. Porém, o actual carácter do território galego vai-se desfiando às presas não por causa dum processo endógeno normal ou pelas nossas livres e informadas decisões, que poderia ser, mas por puro desconhecimento e incompetência.

Continuaremos falando disto, até o arranjarmos ou até que já não fique Galiza e, portanto, ninguém se importe.

cerdedo_cotobade

PD. Outros textos e trabalhos podem-se encontrar na secção de obra.

Nem ordem nem progresso… até começarmos a pôr algum

24/12/2015
DOT

Imagem tirada duma menção às “Directrizes de Ordenamento do Território” em 2010. Deveria ter colocado isto na bibliografia também.

Agradece-se e até dá certa vertigem apreciar o interesse sobre as cousas que um escreve desde o outro lado do Atlântico. Bom, eis a magia da Geografia, origem de todas as ciências, verdade? 🙂

Neste caso trata-se de um resumo feito com forma de ensaio sobre uma investigação anterior bastante mais extensa. Foi publicado na Revista Internacional Interdisciplinar INTERThesis (Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, Brasil), no último número do ano que remata agora (v. 12, n. 2, p. 95-115).

Contudo, indicar só que além de alguma gralha menor e a nota a pé número 5 que ficou meio descolocada, há duas cousas que eu não coloquei no texto enviado: Primeiro, a indicação de eu ser da “Galiza, Espanha”… Quem me conheça ou leia esse artigo sabe que nunca colocaria a ‘E-word‘ aí tão perto do meu nome. Segundo, indica-se que sou doutor pela University College Cork, quando o que completei lá foi o meu mestrado (grau de MPhil).

Deixo embaixo o resumo em versão bilingue e a ligação directa ao artigo em pdf (1,3Mb), ainda que este e outros trabalhos também se podem encontrar através da secção de “obra”.

 

Nem ordem nem progresso para o nosso território. O (des)ordenamento territorial na Galiza.

Resumo: A organização territorial galega é uma realidade complexa, herdeira de uma longa evolução e afectada por fortes mudanças sociais, políticas e económicas recentes que vieram a alterá-la, até o ponto de se fazer necessário um planeamento espacial reequilibrador. Este ensaio pretende apontar de forma breve, e com uma óptica de estudos post-coloniais, como isto não só não foi conseguido, senão como tentativas de ordenamento territorial contemporâneo tiveram em muitas ocasiões um efeito contrário.

Palavras chave: Galiza. Planeamento. Paróquia (freguesia). Comarca. Província.

Neither order nor progress for our territory. The (lack of)territorial management in Galicia.

Abstract: The Galician territorial structure is a complex reality, heir of a long evolution and influenced by intense social, political and economical forces that resulted in drastic alterations. Thus, spatial planning was required to readjust such situation. This essay attempts to briefly point out (from a perspective of post-colonial studies) how this has simply failed, but also how contemporary territorial management practice caused further negative effects in many occasions.

Keywords: Galicia. Planning. Parish. Shire (county/region). Province.

 

Pequenas calamidades editoriais

03/11/2015
quireza

Capa da cousa, com ISBN 978-84-8457-435-4 e 240 páginas em total.

Soube pela imprensa que uma coletânea onde fora convidado a contribuir com um pequeno texto foi finalmente impressa neste ano 2015. Ora viva.

O convite aconteceu no 2012, quando foi escrito e entregue o tal texto de teor geográfico que viria ser o capítulo inicial duma monografia sobre o Vale do Quireça (Terra de Montes, Galiza), coordenada pelo Prof. (emérito) Carlos Balinhas.

Avisado estava eu de que seguramente seria editado pelo governo provincial  de Ponte Vedra e que, portanto, o nome do político de turno poderia aparecer perto do meu por algum casual, mas imaginava isto como um mal menor nestes tempos de muito escassa publicação. Sobre o que não tinha aviso nem podia imaginar era que a apresentação seria feita com políticos ainda piores presentes, sem os autores saberem (ainda bem que um amigo me fez chegar uma cópia), onde na capa figurasse o nome duma única pessoa como se dum único autor faláramos (impunha-se um “coord.” ao carão), ou que a ortografia e linguagem do meu texto seria massacrada. Nem falo já da cortesia de perguntar e rectificar a micro-biografia três anos depois (ainda figura lá que sou membro do IGEC, quando há tempo que deixei isso para trás).

Enfim.

Para quem quiser ler a “versão do autor” do capítulo cá está uma ligação (pdf, 950kb – 5 páginas com algumas imagens), embora não tem muito interesse fora de contexto.

Já nestas, outras obras e trabalhos podem-se encontrar >aqui<