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Espanhóis de esquerda

10/04/2013

estreleira[Artigo publicado originalmente em Diário Liberdade, 10 Abril 2013. Disponível também em *.pdf, 57kb. Mais textos e trabalhos disponíveis >aqui<]

Apanharam-me de surpresa há um par de anos pessoas portando bandeiras espanholas nas manifestações do 25 de Julho, Dia da Pátria Galega, pelas ruas de Compostela.

Fiquei mesmo pasmado com algumas e alguns membros duma família levando indistintamente tanto bandeiras espanholas tricolores como bandeiras duma desejada Galiza soberana, enquanto falavam na língua de Castela. Estava eu recém chegado da emigração e pensei que talvez perdera algum capítulo da série, mas estava de facto a ver o episódio piloto.

Sem vergonha já, e uma vez instalada no Parlamento autonómico galego pela traseira, a esquerda espanhola reformista bota peito em quase todo quanto acto há no País, para perplexidade dos e das que estiveram sempre nessas ruas reclamando não só uma sociedade mais justa e avançada, senão também uma Galiza ceive, elementos todos tradicionalmente considerados indissociáveis e necessariamente complementares.

Mergulhado de súpeto nestas lideiras, a minha cabeça não pode mais que dar voltas a todos esses diálogos impossíveis com “espanhóis de esquerdas”, com muito honrosas excepções, que têm povoado a minha vida dentro e fora da Galiza. Observo o seu aproveitamento (hábil, não vou nega-lo) da actual situação social e económica. Assisto, em verdade, a mais um passo na destruição desta nação.

E é que os espanhóis de esquerdas são… Bom, podem ser de aquém ou além Ponferrada, preocupados no bem-estar do povo trabalhador, pois, mas que povo trabalhador? Obviamente o espanhol, onde galegos e galegas estamos por definição incluídas já que o mais importante nestes casos é a unidade na grande luta de classes superando excessos nacionalistas anacrónicos e sem sentido, não é? Efectivamente, os que dou em chamar espanhóis de esquerdas, muito ou pouco inseridos no eleitoralismo, aginha falam da solidariedade entre os povos trabalhadores por cima dos interesses nacionais burgueses, sempre que a Espanha fique com as suas fronteiras onde estão. Nunca hão defender na praxe, por exemplo, a desaparição dos estados-nação – incluído e começando pelo seu – pelo bem do internacionalismo operário.

Em ocasiões tenho sido confrontado com o que deve ser uma espécie de teste definitivo de compromisso militante, um mantra na linha de “preferes uma Galiza independente e burguesa ou uma Galiza espanhola e socialista”? Quando entro no jogo da demagógica pergunta e vou sem piscar pela primeira opção sentem-se logo reforçados nos seus posicionamentos progressistas, sem repararem nos motivos da minha escolha. Isto leva-me a continuação a questionamentos retóricos como que garantiria uma Espanha socialista e mesmo federal à Galiza enquanto a sua mera existência, ou que ofereceu alguma vez a esquerda espanhola e até a República Espanhola à Galiza[1]. Pergunto-me como farão para travarem a oligarquia espanhola no seu secular espólio integral desta Terra, ou se a hipotética Espanha republicana teria interesse em arranjar de forma justa as contas, balanços, orçamentos e trocas comerciais assim como saldar a dívida histórica, entre outros assuntos. Poderiam mesmo garantir uma República Federal Espanhola socialista? Medito em quais as suas possíveis estratégias para encetar as peculiaridades territoriais e sócio-económicas da Galiza (com características e necessidades muito marcadas) dentro do seu modelo de Estado; há acaso um modelo definitivo, detalhado e pactuado? Estaria muito interessado em conhecer, pelo miúdo, a análise e ideias para reverterem a destruição agigantada do nosso idioma, cultura, da nossa (seu termo) “singularidade”[2]. Numa Galiza verdadeiramente livre, não espanhola, poderiam-se enxergar bastantes ferramentas de gestão interna sobre estes temas, incluída a capacidade de disputa eleitoral justa pela defesa dos modelos sociais e económicos nos que acreditamos, algo que Espanha nunca garantiu e duvido que garanta[3].

Visto em perspectiva, a esquerda espanhola é tão estrangeira na Galiza como a burguesia conservadora, e igual de nociva para o País. Outrossim, e além dalguns tópicos, a maioria da esquerda espanhola pouco sabe da Galiza, repetindo insistentemente retrousos sobre o bem comum e demonstrando que, se realmente pensam que a Galiza é Espanha, muito mal conhecem o seu próprio País. Mas também temos ouvido que o Povo Galego é só mais uma voz no coro da grande história comum, verdade? Ah! Essa Galiza onde se come tão bem e barato, cheia de clichés que enchem as sisudas tertúlias políticas mesetárias. Galiza, o lugar onde “nunca se passou (nem passa) nada”[4], pois a fim de contas é uma terra conservadora por natureza e melhor ficarmos caladinhos já que “não temos muito para exportar além de ditadores e políticos feixistas” (frase real de alguém à esquerda da esquerda federal)…[5][6]

Sei que é uma anedota pessoal, mas acho que elucidativa e seguro que partilhada, quando comento como um militante de velho da esquerda espanhola (não galego) defendeu a sua organização política como defensora do direito de auto-determinação dos povos da Espanha [sic], embora “não acabava de ver o chamado facto diferencial galego” e até espetou que comparar as divergências e brigas nacionais dentro do Estado Espanhol com outras lá ao longe era “de mau gosto”.

Cada um conta a feira como lhe vai nela.

O meu interlocutor não reparara talvez em como a progressia espanhola em Euskal Herria – mais um exemplo – não teve problema em se alinhar com a direita num autêntico exercício de lealdade patriota (espanhola) quando fez falta, como agora barrunta na Catalunya. Ou noutros momentos, a esquerda que formou parte da legitimação da restauração bourbónica é a que quer limitar os possíveis mecanismos de expressão democrática, dizendo à gente o que pode e não pode fazer, o que pode ou não pode escolher[7]. Lá vai o poder popular. Aliás, alguns e algumas enchem a boca com a sua defesa sobre o tal direito de auto-determinação dentro do Estado, mas isso não deixa de ser um exercício meramente teórico, algo lindo no papel mas pelo que não vão mexer um só dedo. De acreditarem realmente, marcariam a mesma presença e mostrariam a mesma paixão tanto pelos direitos nacionais de exóticos povos afastados da Península como intramuros (com todo o meu respeito, simpatia e apoio). Seriam igual de veementes nos debates sobre descolonização e anti-imperialismo além fronteiras ou no caso de territórios sob jurisdição espanhola.

Mas a Espanha não se toca. Como muito tinge-se de combativo vermelho internacionalista, algo interdito à Galiza pois não é uma nação expressamente reconhecida, pela Espanha, que em absoluto é imperialista, já que de facto são os galegos e galegas as obtusas e teimosas secessionistas excluidoras. Curioso. Quase tão curioso como o suposto pedigree em conflitos e penalidades que um Povo tem que levar sofrido recentemente para as suas reivindicações deixarem de ser de “mau gosto” na comparação. Evidentemente o drama tem que ser fresco, onde não vale reparar no ponto de início do conflito ou a evolução histórica e demais circunstâncias. Ainda mais, no geral dessas acríticas catalogações simplistas, os europeus normalmente ficamos desqualificados de entrada agás no caso de o evento afectar algum Estado tradicionalmente competidor da Espanha, como o Reino Unido ou a França, onde os irlandeses, escoceses, bretões, corsos, etc geram algumas simpatias. Digem curioso já? Ou é sintomático?

Entre pensamentos em voz alta e lembranças de mil conversas, qual o ponto comum com alguém que nega desde uma suposta camaradagem o teu direito pessoal a ser e decidir? Como falar de igualdade, sociedade, comunidades humanas, culturas, povos ou internacionalismo solidário quando uns decidem por outros? Qual a solução à falta de formação e sensibilidade? Mais reflexões no ar. Eu pessoalmente não vou perder mais o tempo para alá deste desabafo. Abofé que algumas e alguns no país vizinho à leste honestamente apoiam a causa galega, mas começarei a acreditar que outros acreditam no que dizem acreditar quando ergam a voz, clara e alta, contra o colonialismo, por uma Galiza ceive, lado a lado e dia a dia onde estivemos sempre, fazendo valer a voz dum Povo que quer ter os mesmos direitos e oportunidades que qualquer outro, sem intermediários, para acertar ou errar e aprender no processo.

Desde logo, a minha bandeira tricolor e republicana é branca e azul, com uma estrelinha vermelha.

Referências

[1] Chega com um simples repasso crítico de obras tão bem conhecidas como o ‘Sempre em Galiza’ de Castelao (1944), ou outras da época, para decatar-se da evolução no pensamento de muitos e muitas galeguistas, nomeadamente desde os posicionamentos inicialmente hispano-federalistas a outros mais claramente independentistas por causa duma sentida “traição” da República e da esquerda espanhola à Galiza.

[2] Uma leitura bem introdutória sobre os factos e alguns motivos da desaparição da cultura galega nos nossos dias, simbolizada neste caso no seu idioma, é o livro ’55 Mentiras sobre a língua galega’ (Plataforma ProLíngua, Laiovento, 2009), especialmente pensado para não-galegos (de nascimento ou aculturizados).

[3] É bem conhecido na Galiza o funcionamento do sistema eleitoral imperante (D’Hondt) que garante uma maioria de forças unionistas, quando não directamente conservadoras. Por exemplo, nas últimas eleições galegas (2012) o Partido Popular (direita espanholista) perdeu uns 130.000 votos, ganhando não obstante 3 assentos no Parlamento. Na Catalunha, pela outra banda, o partido conservador CiU perdeu 110.000 votos, e com eles desapareceram-lhes 12 lugares no seu Parlamento.

O sistema D’Hondt é na teoria um sistema proporcional de reparto de assentos nos círculos eleitorais que favorece os grupos maioritários. Porém, quantos mais deputados se elegerem num círculo mais tende o sistema D’Hondt à exactidão proporcional. Na Galiza há 10 deputados por província repartidos sem proporcionalidade e só 35 proporcionais, com o que as províncias menos povoadas e mais envelhecidas (onde opera, aliás, um sistema de compra-venda de favores políticos) têm uma importância eleitoral exagerada. Outra peculiaridade é a existência dum limite mínimo no 5% dos votos para se ter representação.

[4] Além da recomendação de aceder a meios alternativos e internacionais, como este DL, e comparar e contrastar informações, há dous interessantes artigos sobre os mitos da suposta passividade ou docilidade galega na época contemporânea, apresentando em chave histórica as bases da sociedade e política galega recente:

– Jaspe, A. (2000): “The Military Uprising of 1936 and the Repression in Galicia”, em Galician Review, 3-4 (1999-2000), p.77-102. University of Birmingham.

– Thompson, J.P. (2005): “The Civil War in Galiza. The uncovering of the common graves, and Civil-War novels as counter-discourses of impossed oblivion”, em Iberoamerica, V, p. 75-82.

http://www.iai.spk-berlin.de/fileadmin/dokumentenbibliothek/Iberoamericana/18-thompson.pdf

Versão em galego fornecida pela Gze-ditora:

http://agal-gz.org/faq/lib/exe/fetch.php?media=gze-ditora:a_guerra_civil_na_galiza.pdf

[5] Alguns apontamentos sobre a galegofobia recolhidos na literatura espanhola:

http://obierzoceibe.blogspot.com.es/2011/08/esterotipos-antigalegos-na-literatura.html

[6] Reflexão pessoal em teor cómico sobre a galegofobia (curiosamente em espanhol):

http://amnistiaparticular.wordpress.com/2013/01/25/la-gallegofobia-existe-pero-es-mas-simpatica/

[7] “Cayo Lara recalca que Cataluña no puede decidir su futuro ‘unilateralmente’ ”, artigo jornalístico (Europa Press, 24/01/2013):

http://www.europapress.es/nacional/noticia-cayo-lara-recalca-cataluna-no-puede-decidir-futuro-unilateralmente-porque-forma-parte-estado-20130124142405.html

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