Skip to content

Defender o sagrado

13/01/2017

A vida, a liberdade, a terra e a natureza, os nossos direitos, a justiça social, os seres queridos… Poderíamos fazer uma lista de tudo aquilo sagrado para nós, tudo aquilo ao que nunca renunciaríamos e defenderíamos com todas as nossas forças, tudo aquilo com que nos importamos e até nos define como pessoas no seu exercício ou na sua mera defesa. Não é para menos, é sagrado.

Umas reflexões pessoais em modo de breve artigo de opinião sobre a visão religiosa/espiritual de temas de actualidade, o seu tratamento nos mídia e certos preconceitos ocidentais ainda presentes até nos círculos mais progressistas.

A leitura continua na fonte original em Diário Liberdade… 🙂  (ou em pdf >aqui< – 50kb).

 

Did we invent Halloween as well?

24/10/2016

magusto_galaicoGhosts, bats, witches, and pumpkins and Dracula and… Well, Dracula shouldn’t be on the list.

What is Halloween after all, beyond the commercial trap? Sure, most compatriots think it’s just that: a new fad for kids to make parents spend more and for adults to have (yet another) excuse for a crazy night out. Still, they are neglecting the fact that this ancient celebration actually is part of our own heritage as a People, having little to do with the contemporary Hollywood portrayal and the shopping centre frenzy.

I’d like to invite you to read the following article, written by a friend of mine and well-versed researcher. It might come as a surprise to some… 🙂

I had always had a certain reluctance in accepting Halloween entering our lives. It is a tradition that we use to link with the USA, with the carved pumpkins and horror costumes, so popularised in the films. This all reached us when shops started to adopt Halloween paraphernalia in their decorations. They found there a new business opportunity that filled the gap between Summer and Christmas. Yet, when we were children, the night of October 31st was always known as ‘Night of the Witches’, and I remember waiting in vain until midnight in the hope of glimpsing some witch crossing the sky on her broom.

The truth is that the way Halloween was aggressively introduced and promoted also contributed to that reluctance of mine. Plus… [CONTINUE READING]

Galicia Unveiled, for those who dare!

13/07/2016

Gz_Unveiled_largelogoI’m happy to announce a new project I’ve been working on, something different to what I normally do. Or maybe not.

I mean, I spend many of my waking hours talking about my own country and travelling around anyway, trying to raise awareness about it and encouraging people to get to know it, so why not doing it in an organised fashion? What better way than a tourism venture to combine all that? It almost sounds like the perfect job: getting paid for sharing your own passion 🙂 (yet, I won’t quit teaching and researching, of course)

Well, this is Galicia Unveiled, a travel experience specifically designed for those wishing to discover Galicia in a very personal way. Do check the website for all the information and, needless to say, do like and follow the Facebook and Twitter profiles.

Galicia Unveiled comes to life through a partnership with the household names Viajes Deza and Autocares Cuíña.

Palestra sobre fusões municipais e demais desfeitas

18/04/2016

Cercedo CotobadeEsta sexta 22 de Abril às 20h estaremos no Cento Social Gorgullón (Ponte Vedra) a convite da A.C. Amigas da Cultura, partilhando informações e pondo em comum ideias com os vizinhos e vizinhas afectadas pela anunciada “fusão” dos concelhos de Cerdedo e Cotobade.

Falaremos do caos geral do ordenamento territorial galego e como isso deu passo, entre outras cousas, a decisões precipitadas e perigosas como este novo invento político.

Falarei eu, mas o mais interessante será escutar à Rita Iglesias e a toda a gente da plataforma Non á fusión Cerdedo-Cotobade, um grupo cívico que num país normal actuaria (com outro nome) como elemento dinamizador do território e órgão de consulta popular nos processos de planificação estratégica. Aqui são menosprezados, claro.

Evento no facebook >aqui<.

Algo de “literatura” prévia tirado da secção de trabalhos, para quem estiver aborrecido/a:

– [entrevista]: “Galicia precisa dun modelo territorial de aquí a 10, 20, 30 ou máis anos vista”, Praza Pública, em linha (15/04/16).

– (2016b): “En mans incompetentes”, Faro de Vigo (versão curta), em linha (09/04/16), recorte e (*.pdf, 39 kb). Versão extensa publicada no Diário Liberdade, Xornal Tabeirós-Montes (11/04/16) e (*.pdf 717 kb).

– (2016a): “Ti vai fazendo”, Praza Pública, em linha (29/02/16) e (*.pdf, 44 kb). Republicado no Diário Liberdade (03/03/16).

– (2015c): “Nem ordem nem progresso para o nosso território. O (des)ordenamento territorial na Galiza”, R. Inter. Interdisc. INTERthesis, v.12, n. 12, Universidade Federal de Sta. Catarina, Florianópolis, Brasil, p. 95-115 (*.pdf, 1,3Mb).

Cerde-bade-NOM

Que futuro para Galiza?

15/04/2016
geografia

A Geografia explica tudo. Bom… quase. Mas muito sim, abofé 😛

Agradeço enormemente a entrevista publicada esta manhã no jornal Praza Pública, com o título (adaptado) “A Galiza precisa dum modelo territorial de aqui a 10, 20, 30 ou mais anos vista“.

Conduzida por Marcos Pérez Pena, falo um bocado dalgumas das minhas teimas patriótico-geográficas sem tentar aborrecer muito ao pessoal: desfeita territorial, falta de planeamento, as improvisadas fusões de concelhos, etc. Fazendo amigos.

A galegos e galegas, que vos vou contar.

A entrevista completa encontra-se na ligação indicada acima, onde à vez podem-se encontrar ligações a outras referências que também vou colocando nesta página inicial e organizando >aqui<.

 

Em mãos incompetentes (sobre a fusão Cerdedo-Cotobade)

11/04/2016

[Este artigo de opinião foi publicado por primeira vez em versão reduzida e com grafia ILG-RAG no jornal diário Faro de Vigo (09/04/16). Foi republicado na versão aqui exibida no Diário Liberdade (11/04/16) e a partir daí noutros meios. Mais textos e trabalhos disponíveis >aqui<]cerdedo-cotobade

Há um refrão em inglês que diz algo assim como “não atribuas à malícia o que pode explicar a ignorância”. É o que começo a crer que acontece neste País nosso.

Quadrou que levava uns tempos falando sobre o ordenamento e planeamento territorial galego quando apareceu a notícia da fusão dos concelhos de Cerdedo e Cotobade. Quadrou também que chegou até mim uma cópia do “Informe Xustificativo” cerdedense, e da incredulidade passei a lembrar o dito acima: quem escreveu tal cousa seguramente nunca viu diante uma memória geográfica, um informe territorial, um estudo de campo profissional, nem nada parecido.

O texto autocomplacente mistura uma mera enumeração de elementos com conclusões sem fundamento, como o mago que fai um truque sem sabermos como.

Esqueçamos por um instante que algo tão sério como uma fusão municipal deveria ir acompanhada como mínimo por um plano municipal completo, para que o novo concelho tivera alguma esperança de vida no momento da sua gestação. Esqueçamos que tal plano deveria responder à chamada ‘planificação territorial estratégica’, que é como se fazem estas cousas pelo mundo (não há que inventar nada) e que na nossa Terra é, por desgraça, ficção científica. O facto é que o nomeado informe não tem valor técnico e chega a afirmações erradas baseadas em dados parciais e sem contraste.

Começa bem, curiosamente, quando no primeiro parágrafo afirma-se que “o marco territorial está obsoleto e non responde [ás] características actuais da sociedade galega”. Efectivamente, é uma desfeita, e as províncias/deputações e municípios são parte intrínseca desse problema, mas não pelo que o concelho de Cerdedo suspeita. Este é um debate tão velho e documentado como a mesma aparição dessas províncias e municípios a partires de 1833, que vieram a rachar coa estrutura espacial galega tradicional, criando toda uma série de desajustes que sofremos desde então.

Seguem-se depois obviedades (“as previsións demográficas de ambos concellos empezan a ser preocupantes” – começam?), momentos de vergonha alheia (“o proceso de fusión implica o incremento de poboación nunha magnitude que ningún dos preexistentes podería conseguir en décadas” – e se juntáramos cinco melhor), que derivam em especulações (“é lóxico supoñer que a xestión conxunta de servizos suporá un aforro considerable” –  supor algo tão delicado sem contraste de dados é muito arriscado), e falsidades (“importante semellanza territorial entre os concellos”).

Uma olhada rápida ao mapa do novo concelho (embaixo) dá para ver como há duas unidades morfo-geográficas claras, com uma possível terceira no norte-noroeste sem continuidade territorial e que reflexa, aliás, como os concelhos actuais foram mal delimitados já no seu momento. As divisões administrativas bem poderiam ter sido feitas ou refeitas de várias formas diferentes tendo em conta os outros concelhos da contorna. Em todo caso, o novo concelho Cerdedo-Cotobade seria uma estrutura ainda mais deslabaçada, que continuaria a actuar como dous, ou mais, blocos independentes. Além disso, as fotocopias com estatísticas e gráficas diversas – anexas como ‘prova definitiva’ e onde devemos jogar à dedução e ao ‘encontra as semelhanças’ pela nossa conta – não são analisadas em paralelo, seguramente porque ao extrapolarmos dados e percentagens vemos que as dinâmicas sócio-económicas de ambos concelhos sim apresentam diferenças, diferenças que terão que ser harmonizadas seguindo um detalhado plano de… ah, que não havia plano.

Contudo, o mais rechamante deste caso centra-se na questão demográfica como principal escusa do casamento municipal. O cálculo oficialista vira arredor do axioma ‘a mais população mais ajudas, a mais ajudas menor perda populacional’ (“[a] fusión é un instrumento estratéxico de primeira magnitude para asegurar a supervivencia e sustentabilidade a medio e longo prazo”). Lamentavelmente, não se explica qual é a correlação entre dinheiro e correcção do saldo vegetativo negativo, basicamente porque não é automática. Também não se explica se houve medidas de correcção no passado, quais foram, se falharam e porque falharam, que garante que vaiam funcionar no novo concelho, etc. Há novas projecções e estudos? Dependerá o porvir deste novo super-concelho das esmolas da Xunta para sempre? Em que se vão gastar? Exactamente como se vai garantir o fornecimento de serviços? Porque não se pulou pelo plano comarcal e a colaboração regular dentro desse quadro, fazendo fronte comum entre varios concelhos? São alguns dos aspectos que deveriam estar explicados pelo miúdo. O documento chega até o absurdo de indicar que de não cumprir-se esta união cairia-se na “inacción administrativa”… é assim como vêem a sua própria gestão?

Fala-se de “implantación de actividades económicas e industriais” pois o “novo concello goza dun posicionamento estratéxico derivado da súa boa comunicación”. Agromam mais perguntas cujas respostas também tinham que estar já no papel: São actividades desenvolvimentistas clássicas? A fracassada estratégia de parques industriais? Algo novo? O que? Como? Actividades económicas de que tipo? Vencelhadas ao turismo e património natural e cultural que leva anos sendo ignorado e sepultado por silveiras e parques eólicos? Vai parar o AVE em Cerdedo ou Cotobade depois de fracturar ainda mais o território? Serviria realmente para algo? Vão-se elaborar memórias económicas e sectoriais pormenorizadas com projecções de futuro como parte dum plano final? E seica o novo concelho vai mudar de localização, que agora não está bem posicionado… isso sim é novidade!

Poderíamos comentar os motivos da generalizada perda de população do rural galego, que é outro longo debate e que nos traria de volta ao caos territorial. Como resumo, pode-se dizer que não há um modelo territorial claro para Galiza, uma ideia do que somos e aonde queremos ir. Não há uma referência nem um guia para o planeamento espacial que poida ser utilizada por planos municipais coordenados, entre eles e com outros planos. Cita-se “A Xunta de Galicia tamén realiza un considerable esforzo de apoio aos procesos de fusión”, mas não se repara em que a própria Xunta é a grande responsável dessa falta de modelo. Para rematar, com esta fusão destrói-se alegremente o mapa comarcal (da Xunta) de 1997, isto é, o pouco que talvez algum dia poderia chegar a servir como alternativa vertebradora dos distintos níveis territoriais. A desacertada frase “Os concellos … aínda que pertencentes a distintas comarcas … presentan unha indudable [sic] similitude e continuidade” provoca o desacougo de saber que estamos em mãos desinformadas e portanto, dada a sua responsabilidade pública, incompetentes.

É uma necessidade urgente podermos estabelecer esse modelo territorial consensuado no que implementarmos actuações lógicas e razoadas, sabendo que podemos errar, o cal é humano, mas nunca por causa do desespero, improvisação ou ignorância. As fusões municipais por elas mesmas não resolverão grande cousa, criando-se com elas novas jurisdições artificiais num marco geral eivado, novos pólos e novos fluxos dos que não sabemos nada. No melhor dos casos, será uma dessas situações de ‘pão para hoje’ quando a Galiza precisa primeiro duma reformulação espacial total.

E a democracia, é verdade, a democracia. Que importante é. Porém, há que lembrar que a democracia alicerça-se na informação. Dispormos de todos os dados é o requisito inicial para começar a te-la, e isso não se resolve com algumas palestrinhas informativas a posteriori e anúncios populistas de ‘referendos’ uma vez feita a foto com o Presidente dando-o tudo por fechado. Tampouco limitando o aceso a este ‘Informe’ em sede municipal durante umas horas e uns dias determinados, havendo internet.

É certo que existe um subtil equilíbrio entre atingir o ‘bem da maioria’, as iniciativas administrativas, a vontade popular e os critérios técnicos, mas isso precisamente implica governar. Por esta razão falava no começo do planeamento estratégico, que numa situação como esta determina os passos a seguir desde um ponto de vista técnico mas, igualmente, detalha como a cidadania deve estar totalmente informada e formar parte do processo antes, durante e depois do seu desenvolvimento, execução e seguimento. Noutras palavras, a proposta de fusão Cerdedo-Cotobade deveria ter seguido umas etapas bem definidas sob constante escrutínio público. No fim, este é um tema crítico que afecta o futuro dos vizinhos e vizinhas e que precisa de todas as garantias possíveis.

A propósito, democracia também teria sido incluir algo tão sensível nos programas das eleições locais do ano passado, e não vir agora com umas presas incompreensíveis quando se requer um processo lento e pausado, mas temo que isso dá para outro escrito.

Topográfico fornecido pelas autoridades. Clicar para ampliar.

Topográfico fornecido pelas autoridades. Clicar para ampliar.

“A Galiza e o Norte de Portugal são a origem da celticidade europeia” (F. Benozzo) – “Galicia and North Portugal are the origin of European Celticity”

23/03/2016
Foto de Aldo Missiroli (CC by-sa/4.0) - O Professor Francesco Benozzo

O Prof. Benozzo. Foto de Aldo Missiroli (CC 4.0)

[scroll down for English version] Ré-reproduzo a (pequena) entrevista que tive a honra de lhe realizar ao Prof. Francesco Benozzo, perante a sua iminente visita. Foi publicada por primeira vez no blogue amigo do DTS (13/03/16), e desde aquela re-publicada também noutros muitos lugares.

 

O Professor Francesco Benozzo (Módena, Itália, 1969) é um dos grandes nomes por trás do Paradigma de Continuidade Paleolítica, afirmando que existe uma continuidade clara nas origens e desenvolvimento dos povos europeus, origens que podem ser colocadas ainda mais atrás no tempo do que normalmente é considerado. Esta mudança na compreensão da arqueologia, pré-história e linguística europeia é de enorme relevância para a Galiza e (Norte de) Portugal, pois situa este território no centro da génese da chamada Cultura Celta, entre outros aspectos.

Com dois doutoramentos em linguística e filologia pelas universidades da Bolonha (Itália) e Aberystwyth (País de Gales), na actualidade lecciona na nomeada universidade italiana. Contudo, Francesco Benozzo não está limitado pelo formalismo que normalmente acompanha a vida académica. Ele também é um reconhecido poeta e harpista, com um grande número de obra e música editada, o que fez com que o seu nome fora proposto como Prémio Nobel de Literatura.

Teremos a fortuna de recebê-lo este próximo Abril (dias 2 e 3) na quinta edição das Jornadas das Letras Galego-Portuguesas (Pitões das Júnias, Montalegre, na “raia” galego-portuguesa), onde debaterá sobre estes e outros temas, como vai indicado na entrevista a seguir.

 

– Qual foi a primeira coisa que chamou a sua atenção sobre a Galiza e Norte de Portugal? Foi algo puramente académico ou houve algum outro factor motivando que se centrara em nós?

Desde que era criança o meu instinto sugeria que o significado original das coisas reside nas áreas e localizações periféricas. Com isto não quero dizer “periférico” simplesmente num sentido geográfico mas, principalmente, num sentido poético. Esta é uma das razões pelas quais fui viver ao País de Gales (e não Inglaterra) durante uns anos, e também a razão pela qual deixei a minha cidade natal de Módena, no norte da Itália, e decidi viver nas montanhas. Também acredito que, como académicos, devemos estudar e concentrarmos-nos em tradições “periféricas”: tradições populares, dialectos, textos orais, culturas das pessoas marginais e assim por diante, porque o que agora é percebido como “marginal” e “periférico” foi , em muitos casos, o centro original do que na actualidade percebemos como centro.

A Galiza e o Norte de Portugal sempre foram parte desta minha “topografia poética” e da minha concepção poética, começando pelas suas lendas e tradições e grandes poetas como os trovadores medievais, até mesmo Rosalia de Castro ou Eduardo Pondal.

 

Considera que o noroeste ibérico pode ser considerado a origem da “celticidade” na Península desde um ponto de vista linguístico?

Não só. Penso que pode ser considerado a origem da celticidade em toda a Europa.

 

Qual é a sua opinião sobre a relação entre o mundo céltico e Tartesso, como postula o Prof. Koch?

John [Koch] tem produzido um trabalho extraordinário sobre isso na última década. Não vejo quaisquer razões linguísticas que puderam negar essa conexão postulada. O problema com a teoria de Koch é que auto-limita-se à Idade do Bronze Tardio, o qual contradiz a sua ideia de “Celtas do Oeste”. Em vez disso, se falarmos de etnogénese, devemos ir além das restrições das fontes escritas e termos a habilidade para conectarmos-las com outro tipo de fontes como assim as lendas, tradições, genética, etno-textos ou léxico dialectal. Em consequência, poderemos falar de “Celtas Paleolíticos” nesta área. Dentro deste quadro, Tartesso pode ser visto como uma das muitas relíquias escritas “recentes” de um fenómeno muito mais antigo.

 

– Por que acha que há este esforço renovado em algumas partes da Europa para desacreditar o termo “celta”, ou mesmo até a existência de uma cultura celta?

Por três razões principais. Em primeiro lugar, sendo eu mesmo um anarquista, diria que há uma tendência inata por parte dos que estão no poder de excluírem a diversidade e, acima de tudo, “centralizarem” qualquer tipo de estratégia ligada ao seu poder. Assim, como sabemos, desde a sua proto-história os celtas sempre foram os “perdedores” em termos geopolíticos e foram excluídos logo de qualquer jogo de poder das elites europeias.

Em segundo lugar, podemos encontrar um desconforto geral com a celticidade se a compararmos às culturas oficiais padronizadas que, de certa forma, governam o mundo. Noutras palavras, admitir que a inquietante, multiforme, colorida, rural, estratificada e arcaica cultura celta possa ser parte de nós é, em muitos casos, difícil de aceitar para as pessoas criadas com a certeza e o mito conformista da estabilidade e um conhecimento superficial da história europeia.

Por último, e em relação às razões mencionadas acima, a cultura celta representa, em termos psicanalíticos, o subconsciente da Europa, o que provoca uma contínua tentativa para reprimi-lo e suprimi-lo.

 

– Como reconhecido investigador, mas também como poeta e músico, há algum tipo de conexão entre o seu trabalho académico e o seu trabalho artístico? Ou tenta manter ambos mundos separados?

Espero que estes três aspectos convivam, como acontece com diferentes elementos duma mesma paisagem. A minha expectativa é provavelmente parecer como um músico que estuda filologia, um poeta que toca harpa e um filólogo que compõe poemas.

 

– Depois de todas as suas viagens e investigações, como resumiria o “carácter céltico”? Por exemplo, quando visita a Galiza-Norte de Portugual, que sente em conexão com outros territórios célticos?

Primeiro de tudo, há um sentimento especial com o mar, que é diferente do que tenho observado noutras comunidades, tais como as das Ilhas Féroe ou do Mediterrâneo. Nas terras celtas este sentimento está ligado a uma atitude “lendária” e melancólica na percepção da paisagem marinha, e na capacidade de conectar lugares com histórias.

Há também uma clara, inata, não previsível, percepção musical do mundo. Além disso, existe a consciência do valor arcaico e civilizador de coisas que foram esquecidas noutros lugares, como partilhar umas bebidas, alimentos e histórias.

 

Nas V Jornadas das Letras Galego-Portuguesas, o Prof. Benozzo participará com a palestra intitulada “Uma paisagem atlântica pré-histórica. Etnogénese e etno-filologia paleo-mesolítica das tradições galegas e portuguesas”.

O evento é aberto e de assistência livre e gratuita, e a intervenção do Prof. Benozzo será em inglês com tradução ao português.

 

[English version] This is a re-republication of a (small) interview I had the pleasure to conduct with Prof. Francesco Benozzo, before his impending visit. It first appeared on DTS (13/03/16), and has since then been republished in a number of other places.

 

Interview with Prof. Francesco Benozzo: “Galicia and North Portugal are the origin of European Celticity

Professor Francesco Benozzo (Modena, Italy, 1969) is one of the big names behind the Paleolithic Continuity Paradigm, claiming that there is a clear continuity in the origins and development of European peoples, origins which may also be placed further back in time to what it is commonly considered. This shift in the understanding of European archaeology, prehistory and linguistics is of the utmost relevance for Galicia and (Northern) Portugal, as it sets this territory at the centre of the genesis of the so-called Celtic Culture, among other aspects.

With two PhDs in linguistics and philology by the universities of Bologna (Italy) and Aberystwyth (Wales), he currently lectures at the former Italian university. However, Francesco Benozzo is not limited by the formalism that usually accompanies academic life. He is also an acclaimed poet and harpist, with a large number of published works and music, leading to his name being proposed for a Nobel Prize in Literature.

We will be most fortunate to welcome him this coming April (2-3) in the fifth edition of the Jornadas das Letras Galego-Portuguesas (Pitões das Júnias, Montalegre, right at the Galician-Portuguese border), where he will be discussing these and many other topics, as outlined in the following interview.

 

What was the first thing that got your attention about Galicia and North Portugal? Was it something purely academic or was there any other factor that made you focus on us?

Since I was a child my instinct suggested that the original meaning of things lies in peripheral areas and locations. I don’t just mean “peripheral” in a geographical sense but, mostly, in a poetic one. This is one of the reasons why I went to live to Wales (and not England) for a few years, and it is also the reason why I left my hometown of Modena, in Northern Italy, and decided to live in the mountains. I also believe that, as academics, we must study and concentrate on “peripheral” traditions: folk traditions, dialects, oral texts, cultures of the marginal people and so on, because what is now perceived as “marginal” and “peripheral” was, in many cases, the original centre of what we currently perceive as being at the centre.

Galicia and North Portugal have always been part of this “poetic topography” of mine and of my poetic conception, starting from their legends and traditions, and from great poets such as the medieval troubadours, to even Rosalia de Castro or Eduardo Pondal.

 

– Do you think that the Iberian north-west can be considered the origin of “Celticity” in the Peninsula from a linguistic point of view?

Not only. I think that it can be considered the origin of Celticity in all of Europe.

 

What is your opinion on the relationship between the Celtic world and Tartessos, as Prof. Koch postulates?

John [Koch] has produced an extraordinary work in the last decade about that. I don’t see any linguistic reasons that could deny this postulated connection. The problem with Koch’s theory is that it limits itself to the late Bronze Age, which comes in contradiction with his idea of “Celts from the West”. If we speak of ethnogenesis instead, we must go beyond the restrictions of written sources and have the ability to connect them with other sorts of sources such as legends, traditions, genetics, ethnotexts or dialectal lexicon. Consequently, we’ll be able to speak of “Paleolithic Celts” for this area. Within this framework, Tartessos can be seen as one of the many “recent” written relicts of a much older situation.

 

– Why do you think there is this renewed effort in some parts of Europe to debunk the term “Celtic”, or even the existence of a Celtic culture?

For three main reasons. Firstly, being myself an anarchist, I would say that there is an innate tendency of those in power to exclude diversity and, above all, to “centralise” any kind of strategy connected to their power. Thus, as we know, since their proto-history the Celts have always been the “losers” in geopolitical terms, and have then been excluded from any power play of the European elites.

Secondly, we can find a general discomfort with Celticity if compared to the official and standardised cultures which, in a way, rule the world. In other words, to admit that the many-sided, coloured, rural, disquieting, stratified, archaic Celtic culture can be part of us is, in many cases, difficult to accept for people raised with the certainty and the conformist myth of stability and with a superficial knowledge of European history.

Lastly, and in connection to the above-mentioned reasons, Celtic culture represents, in psychoanalytic terms, the subconscious of Europe, which causes a continuous attempt to repress and suppress it.

 

– As an accomplished researcher, but also poet and musician, is there any connection between your academic work and your artistic work? Or do you keep both worlds separate?

I hope that these three aspects live together, as it happens with different elements of a same landscape. My expectation is probably to look like a musician who studies philology, a poet who plays the harp, and a philologist who composes poems.

 

After all your travels and research, how would you summarise the “Celtic character”? For example, when you come to Galicia-North Portugal, what do you feel in connection to other Celtic territories?

First of all, there is a special feeling with the sea, which is different from the one I have observed in other communities such as the Faroese or Mediterranean ones. In Celtic lands this feeling is linked to a “legendary” and melancholic attitude in perceiving the landscape and seascape, and the capacity to connect places with stories. There is also a clear, innate, not predictable, musical perception of the world. Furthermore, there is the consciousness of the archaic and civilising value of things that have been forgotten elsewhere, such as the sharing of drinks, food and stories.

 

At the V Jornadas das Letras Galego-Portuguesas, Prof. Benozzo will give a presentation entitled “A prehistoric Atlantic landscape. Paleo-mesolithic ethnogenesis and ethnophilology of the Galician and Portuguese traditions”.

The event is free and open to the public. Prof. Benozzo’s talk with be in English with translation into Portuguese.

V JornadasGalegoPortuguesas