Entre paranóias, infiltrados, falta de discurso, dilatação no tempo e crescente apagão informativo, os movimentos DRY e 15M vão esmorecendo na sua presença e números totais. Ainda que agora apela-se à “descentralização” para, precisamente, poder actuar de forma mais eficaz localmente. Tarde piarom? Curiosamente a brutal violência policial dos últimos dias reactivou a indignação daqueles que já iam esquecendo este capítulo da história, mas já foi tomada boa nota.
Nomeei a falta de discurso, mas deveria falar de discurso espesso, alternante, supostamente apolítico, quando tudo é política nesta vida. “Apartidário”. Linda palavra, mas no momento que se chama – por exemplo – a um câmbio de sistema eleitoral, e se dão propostas (muitas vezes divergentes) de como face-lo, a cousa toma por definição uma cor eminentemente política. Desbotou-se, aliás, a possível ajuda de organizações, colectivos e pequenos partidos com uma ampla experiência nestas lutas e que poderiam ter dado uma mão na organização, concretização de objectivos e, em resumo, a uma maior e melhor presença no tempo da ‘indignação’. Pedia-se uma mudança de sistema e em votarmos em masa, mas não aos partidos tradicionais, quando ao tempo excluiu-se a esses outros partidos e grupos de terem voz por eles mesmos nas acampadas. Bem feita. Foi e será maioria absoluta do PP, porque os que não foram às praças (a grande maioria de votantes) ou já iam votar direita ou interpretaram tudo isto como um castigo ao governo de turno. A partir deste domingo ides ver que bem (sic) vai governar o PSD em Portugal também. E é que numa crise estrutural do sistema o pessoal votou os próprios cães guardiões do tal sistema.
Na Irlanda polo momento (outro país que conheço bem) nacionalizaram um par de bancos e trocaram de governo nas últimas eleições, algo histórico só por isso, mas o caciquismo e corrupção continuam, assim como a subordinação a poderes externos. Nem falar de reorganizar a estrutura administrativo-territorial por suposto, cancro geográfico do país, como na Galiza. Mudaram as aparências para não mudar nada.
Como na restauração bourbónica española de 1975-78, houve muito barulho para o que logo foi. Ou para o que alguns/mas queríamos. Claro, que eu sou um extremista (os de Telefónica não) e falo o que não devo e nunca a gosto de todos, tinha esquecido. Olha, seica os islandeses são todos como eu. Vou ter que emigrar lá. Mágoa do clima. Naquele país o Povo, após um colapso total da nação em 2008 quando já tinham nacionalizado o principal banco, faz o seguinte:
- No 2009 o Povo toma as ruas e frente o Parlamento – até aí tudo bem – exigem eleições, provocando a demissão do Primeiro Ministro e o seu governo. Os novos coitados ao leme propõem uma lei para a devolução da dívida a Reino Unido e Países Baixos que suporia que todas as famílias islandesas pagassem uma quantidade mensal durante 15 anos com 5,5% de juros, até um máximo de 3.500 milhões de euros no total. O Povo bota-se à rua mais uma vez exigindo um referendo sobre esta lei.
- Em Janeiro de 2010 o Presidente da República – por medo ou ideais, tanto tem – nega-se a ratificar esta lei. Em Março celebra-se o referendo e 93% vota “não” à lei. O governo, tentando safar o pescoço desta vez, começa uma séria investigação para resolver judicialmente as responsabilidades da crise. Banqueiros e altos empresários são detidos, enviados à cadeia ou fogem do país. Mesmo requer-se ajuda da Interpol.
- Neste contexto elege-se uma assembleia de 25 cidadãos sem filiação política de entre 522 candidaturas para reformar a Constituição. O único requerimento era ser maior de idade e ter o apoio de polo menos trinta pessoas nessa candidatura. Em Fevereiro deste ano 2011 começaram a trabalhar, em conjunto com outras assembleias formadas em todo o país. E nessas estão.
Sim, claro, Islândia é um país pequeno com muita pouca população. Mas é curioso que os meios cá não falem nunca disto, não sim? Será também a deriva “esquerdosa”, levando-nos sempre a contra? Ou a capacidade de pensar em alternativas reais que travem o caos e a barbárie, no verdadeiro interesse social e não das oligarquias económicas? Os islandeses sabem que erraram no seu sonho capitalista e que talvez numa altura venderam a sua alma ao dianho (como Irlanda, outra vez), mas a diferença dos irlandeses os islandeses souberam corrigir a tempo e da maneira mais higiénica possível. A História há tomar nota disto também.

Além destes outros exemplos de carragem, se as acampadas demonstraram que algo cheirava a podre no Reino de España – entre todo o bom, atenção, mas polo visto pessoalmente só posso falar da indignação entre @s indignad@s – é o eterno isolamento e umbiguismo, pois os islandeses já encetaram tudo isto há tempo, a Geração à Rasca em Portugal em Março, ao tempo do que ia acontecendo no norte de África e outros países. Tem-se criticado desde sectores na Galiza, por exemplo, a falta de comunicação direta com outros países e outras experiências a decorrer agora mesmo. Nem vou falar de como as próprias acampadas são reflexo das separações ideológicas de fundo, da visão do mundo e péssimo conhecimento geo-histórico, neste mal construído Estado, onde velhos conflitos surgem cortando transversalmente todo o espectro social aí representado. E isto vai desde o tema linguístico até o feminismo, assuntos que deveriam formar parte de qualquer acordo de mínimos. Tem havido situações mesmo dantescas meus. Não é de estranhar que muit@s aproveitem(os) para dizer “chegou!“.
O Povo está farto, sim. Mas muitas vezes uns/umas estão fart@s cara uma banda e outr@s cara a outra.
Pois. Se alguém ainda não conhece a diferença entre a esquerda e direita política, entre democracia representativa, aberta, etc, ou não conhece os processos históricos – embora muito superficialmente – que provocam câmbios na sociedade e a perda ou ganho de direitos laborais, individuais, e demais… Desculpem mas leiam um livro, que as bibliotecas públicas estão cheios deles e são de borla (quase sempre), por enquanto. E digo livros, não internet. ‘Tá bom, quem perceba inglês que veja este vídeo. Fascinante. Chomsky falando da democracia real ;) Ah, o conceito de paisagem cultural também é relevante, porque isso acaba por influenciar a política e organização geo-administrativa – “Territory Sustains Reality” – mas isso é para outro dia (<- nota do geógrafo).
E é que, finalizando, alguém já falou do risco de ter um movimento aberto/democrático/cidadão que nem é de esquerdas nem direitas (sic), que está por riba de todo e de tod@s na procura do interesse geral (?)… É algo que já aconteceu nos EUA. Chama-se “Tea Party“. Sim ó! Não sabíades? A Palin opunha-se fortemente ao resgate dos bancos, por exemplo… ains! como a Rosa Díez! (lol).
É o tempo de tomar posições. Não estão as cousas para posturas mornas. Nem sequer temos que inventar nada muito novo. Talvez seja só questão de convicção e perseverança nos tempos depois da birra. @s que estavam na luta hão continuar. Oxalá agora, depois de tudo isto, haja muit@s mais. Isso só já teria sido um triunfo. Parv@s não somos.
Avante!